A Paixão de Cristo (2004): o enfraquecimento da fé

A Paixão de Cristo reflete uma mentalidade bastante característica do novo milênio: o enfraquecimento da fé


A Paixão de Cristo é um filme americano de 2004 dirigido por Mel Gibson, roteirizado por ele mesmo e por Benedict Fitzgerald. Teve como protagonista Jim Caviezel, no papel de Jesus. O filme narra as últimas doze horas de Cristo, ou seja, os momentos da sua Paixão.

Criticado por alguns e exaltado por outros, o filme é muito relembrado pela sua altíssima violência. Quanto a esse aspecto, devemos lembrar da origem da palavra “paixão”, do grego páthos, que significa sofrimento. Assim sendo, é completamente plausível a escolha da violência para ilustrar o sofrimento de Jesus. Ainda assim, faremos alguns comentários que vão além desse aspecto, pois o nível de violência não basta para analisar uma obra, sendo essa uma escolha do seu realizador. Falaremos desse aspecto mais adiante.

No primeiro minuto do documentário Making The Passion of the Christ, Mel Gibson revela ao espectador o seu objetivo com a obra. Ele diz que a sua intenção era fazer uma história que inspirasse e emocionasse as pessoas profundamente e que espalhasse os efeitos do amor, da fé e do perdão. É impossível negar o efeito que o filme causa, mas ele se destaca também por outros fatores, sendo um deles o linguístico. O filme pretende reconstruir as línguas faladas na época de Jesus, algo bastante surpreendente. Mel Gibson convidou um especialista em textos sagrados e tradutor de latim e do aramaico para o auxiliar nesse trabalho, o estudioso William J. Fulco. O objetivo, ao utilizar esses idiomas, não foi o de trazer Jesus para o presente, mas levar o espectador ao passado, para torná-lo um observador anônimo da Paixão.

Entramos assim em um dos tópicos mais complexos do filme: a sua reconstrução histórico-idiomática. Jesus falava aramaico e, obviamente, o aramaico utilizado no filme não é perfeitamente condizente com o da época. Fulco afirma que recorreu ao hebraico, ao aramaico tardio e até ao árabe para chegar a palavras desconhecidas do aramaico de Jesus. O aramaico também é utilizado quando Pilatos fala com Jesus, pois além de Pilatos estar estabelecido na Palestina há onze anos naquela época e, provavelmente, conhecer a língua local, essas falas têm um valor narrativo. Jesus respondia a Pilatos em latim, a língua que passaria a ser a língua da Igreja do Ocidente no século IV. A ideia transmitida era que Jesus venceria Pilatos em sua retórica. Embora Gibson e Fulco soubessem que o grego era a língua vigente na época de Jesus, mais falada do que o latim, eles mantem o uso do latim por motivos narrativos. É como se Gibson tivesse optado por dar a Jesus a língua da igreja.

A Paixão de Cristo foi inspirado não apenas nos evangelhos, como também no livro do Apocalipse (como na cena em que Jesus cai pela segunda vez e encontra o rosto de sua mãe e diz que “todas as coisas se renovam”), como também no Tanakh, além de na iconografia, como as versões da Via Sacra, o sudário de Turim, obras de Caravaggio e a Pietá de Bouguereau. A própria imagem de Maria Magdalena unida identificada com prostituta salva do apedrejamento está presente no Textus Receptus. O livro A Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que narra os estigmas da freira alemã Anne Emmerich, também auxiliou Gibson com a questão das feridas de Cristo na Via Crucis.

Mel Gibson foi o responsável pela direção e roteiro do longa. Como geralmente ocorre em seus filmes, há uma grande profundidade filosófica na narrativa. Os destaques ficam para o realismo e os closes nas feições de Jim, que valorizam cada segundo o sofrimento de Jesus. O filme também realiza uma ambientação muito satisfatória, quando intercala quadros fechados e abertos para valorizar a solidão e a dor de Jesus perante as acusações recebidas e o mundo que se fechava entorno dele. Esses fatores fazem a imersão naquele universo ser uma experiência profunda e reflexiva.

Voltemos à questão da violência, principalmente referida ao sangue de Jesus como elemento central da mensagem fílmica. Logo no início do filme, um versículo de Isaías (53) aparece, dizendo que um Messias viria para sofrer pelos pecados humanos. Isaías foi o profeta que previra a chegada do Messias, que traria a salvação para o povo judeu através do derramamento de seu sangue. A ideia de que o sangue de Cristo lava os pecados dos homens é evidente, como podemos exemplificar com a cena em que Cristo foi retirado da cruz, e teve a sua coroa de espinhos ensanguentada removida. Nela há um close demorado, intercalado com um flashback da mensagem de Cristo na Santa Ceia, em que ele dizia que o que viveria ninguém seria capaz de viver.

Assistindo ao filme, podemos pensar que, segundo palavras do próprio Gibson as pessoas estariam vivendo a fé de forma bastante amena, esquecendo-se de que, para a tradição cristã, Cristo sofreu como nenhum outro para trazer a salvação. O sofrimento de Cristo, além de representar a abdicação de certos valores mundanos, remete o crente ao cerne de sua fé, fazendo com que esse esteja mais próximo dela.

A memória, a consciência do sofrimento de Cristo é parte de uma “pedagogia” de aprendizado religioso extremamente antiga. Representações iconográficas ao longo de toda a história do cristianismo já traziam o tema do sofrimento. O catolicismo que herdamos de portugueses e espanhóis era trágico, dramático, impressionante, diferente da devoção aparentemente sem imagens dos protestantes norte-americanos e europeus. Se a violência não está na Bíblia, ela está na cultura religiosa cristã, em vários momentos e espaços. O que um filme dessa temática faz, dentre outras coisas, é recriar símbolos, histórias e diálogos para conformar uma mensagem de sentido existencial e religioso.

Evidentemente, a violência faz parte da mise-en-scène da obra, sem a qual a mensagem pretendida não estaria completa. Sem ela, não conseguiríamos conectar o filme ao fenômeno que ele reflete: uma amenização da fé cristã. A Paixão de Cristo reflete uma mentalidade bastante característica do novo milênio: o enfraquecimento da fé. Ainda além da amenização da fé, a desvinculação dela com as instituições religiosas contribui para a queda da reflexão religiosa.

Nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto 72% da população se autodeclarava cristã em 2000, em 2013 esse número já caiu para 62%, uma queda de 10% em pouco mais de 10 anos. Em outro comparativo, podemos confirmar que não apenas o cristianismo tem perdido devotos, mas também que a fé no seu sentido mais amplo tem estado em declínio. Nos Estados Unidos, em 2000, 70% da população frequentava algum tipo de grupo religioso. Em 2020 esse número caiu para 47%. Podemos dizer que o filme ilustrou muito bem esse momento, percebendo esse novo movimento “cientificista”.