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Batman (2022): a ascenção de um “herói noir”

Matt Reeves compõe uma unidade estilística bem definida que permeia o universo de um personagem soturno e de um tipo de “herói noir”.

Batman (no original em inglês The Batman) é um filme de super-herói estadunidense baseado no personagem Batman da DC Comics, produzido pela DC Films, 6th & Idaho e Dylan Clark Productions e dirigido por Matt Reeves. O filme conta no elenco com Robert Pattinson como Batman/Bruce Wayne, Zoë Kravitz como Mulher-Gato/Selina, Paul Dano como Charada, Colin Farrell como Pinguim, Jeffrey Wright como Gordon, Andy Serkis como Alfred e John Turturro como Falcone.

O personagem Batman pode ser considerado facilmente como o super-herói que mais adaptações bem-sucedidas tiveram. Leslie H. Martinson apresenta ao público uma Batman extremamente cartunesco, em uma tentativa bastante deliberada de transportar o personagem dos quadrinhos para a tela. Tim Burton levou às telas um personagem bastante sombrio, com forte influência da literatura e do expressionismo alemão dos anos 20. Joel Schumacher, em suas duas adaptações pouco compreendidas até hoje, apresentou o universo de Gotham sob uma estética camp. Sob a égide de Christopher Nolan, Batman atingiu um patamar nunca antes visto no cinema “de heróis”. Sob aspectos técnicos bastantes interessantes como a utilização estilística da lente teleobjetiva e uma mise-en-scène obscura e misteriosa, Nolan elevou os filmes de heróis a um subgênero passível de complexa tecnicidade, onde até mesmo seriam reconhecidos em festivais. Após Nolan, foi a vez de Zack Snyder levar às telas o personagem. Graças a uma produção desorganizada, pouco de qualidade foi entregue. O fato do Batman não ter protagonizado individualmente um longa contribuiu para a genericidade da adaptação, apesar desse não ter sido o único aspecto para a baixa qualidade do filme.

Resumidamente, depois de tantas obras de indubitável qualidade, coube a Matt Reeves readaptar o já exausto Batman cinematográfico. Como poderia Reeves entregar algo que não fosse visto como genérico ou reaproveitado de um Batman anterior? O desafio foi aceito e o resultado alcançado.

Com um tom soturno e narrado pelo próprio protagonista, o filme já nos minutos iniciais define seu tom geral: depressivo e sombrio. O Batman não é apenas um herói salvador, ele é parte de uma cidade em ruínas, sombria e degradada. Em uma fantástica sequência de abertura, enquanto o protagonista narra a situação da cidade, são mostrados crimes em torno da cidade, sempre com a presença de sombras em torno dos criminosos. Tais sombras são cortadas por feixes de luzes diegéticas, o espectador não sabe qual dos delinquente que compartilham a sequência será repreendido pelo herói. A montagem e a fotografia enganam o espectador, pois elas se responsabilizam por tornar o Batman um ser quase onipresente. Ele parece estar fundido àquelas sombras, ele é um ser onipresente em Gotham. Enquanto as cenas passam com a narração, uma canção arrastada as conecta. No fim dessa primeira sequência, Reeves ignora a intuição do espectador e é o próprio Batman que afirma ser “as sombras, e que eles acham que estão seguros nelas”.

O tom do longa é estabelecido já no início, e isso é respeitado até o fim. O Batman onipresente é evidenciado através da narração, da trilha, do jogos de sombras e da montagem, mas não é isso que guia a narrativa. Eis que um novo elemento surge, que é a aproximação do filme com o cinema noir. A investigação, o jogo de luzes em contraste, a presença da femme fatale na figura da Mulher-Gato, os vilões corruptos influentes e líderes de gangues, um mistério pessoal da vida do investigador. Vários elementos desse gênero estão lá. Inclusive o forte uso de desfoques evidencia esse personagem que as vezes se vê perdido em certas questões. A fotografia é bastante competente em fazer transparecer os sentimentos de Bruce/Batman, geralmente lidando de forma bastante expressiva com os espaços onde ele se encontra. Enquadramentos abertos e fechados são intercalados, ao mesmo tempo que desfoques são usados inteligentemente de forma narrativa.

Outro aspecto que demonstra o protagonista inserido nas tramas do filme gira em torno da trilha sonora. A inclusão dos sons foley é bastante interessante por inserir no longa um jogo de sons metálico intercalados entre diegéticos e não diegéticos, como sons de trens e correntes sendo arrastadas. Tais sons remetem o espectador a um aprisionamento naquele espaço. Além desses sons e da utilização da já mencionada trilha musical arrastada e taciturna, uma canção bastante melancólica do Nirvana ganha voz. É sempre interessante quando uma canção é usada inteligentemente como elemento expressivo. A canção diz repetidamente que algo está bloqueando o caminho de alguém, e que os animais foram aprisionados para virarem pets de alguém que não vive na natureza. O filme é sobre um personagem que utiliza um nome de um animal e que se relaciona com outros personagens que também frequentemente usam nomes de animais (gato, pinguim, morcego) em uma grande cidade onde pouco ou nada se vê de verde.

Matt Reeves conseguiu entregar um Batman diferente dos anteriores e conseguiu manter a essência do personagem. Utilizou características do cinema noir e empregou de forma bastante interessante os elementos, compondo uma unidade estilística bem definida que permeia o universo de um personagem soturno e de um tipo de “herói noir”.

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