O Evangelho Segundo São Mateus (1964): uma busca pela mensagem original de Jesus

Jesus, ao mesmo tempo que se aproxima intimamente do Jesus bíblico, se apresenta como um líder do povo, flertando com as crenças políticas do autor.

O Evangelho Segundo São Mateus (em original Il Vangelo Secondo Matteo) é um filme italiano de 1964 dirigido e roteirizado por Pier Paolo Pasolini e protagonizado por Enrique Irazoqui no papel de Jesus Cristo.

O filme é emblemático por diversos fatores, mas um deles é o fato de ter sido realizado por Pasolini, cineasta que se autodeclarava ateu, comunista e homossexual. Mais curioso ainda é o filme ter sido incluído na famosa lista criada pelo próprio Vaticano dos 45 filmes de temas religiosos mais aceitos pelo catolicismo, uma vez que as obras de Pasolini são geralmente criticadas pelas entidades cristãs. Todavia, pelo conteúdo do filme, não surpreende essa aceitação, pois a obra é bela e facilmente agradaria a cristãos e ateus, pois a sua beleza não reside na força de mensagens dogmáticas, mas sim na sua forma que destaca antes de mais nada a mensagem, a princípio, do próprio Jesus.

A mensagem de Jesus é o ponto central do filme, que não se preocupa com uma ambientação historicamente precisa, tal como as vestimentas ou aspectos arquitetônicos e linguísticos. Não há tampouco qualquer intenção de mostrar os eventos dentro de uma cronologia. Podemos encarar essa ausência de elementos, que seriam oriundos de uma pesquisa mais aprofundada, não como um empobrecimento do filme, mas uma opção estilística, pois, dessa forma, toda a atenção do espectador estaria centralizada na mensagem de Jesus. As suas falas foram retiradas ipsis litteris do evangelho, e essas palavras são palavras de humildade, condizentes com a unidade estilística proposta por Pasolini.

Todo o universo do filme gira em torno do que Jesus tem a dizer. Enrique Irazoqui dá vida a um Jesus incrivelmente próximo daquele descrito nos evangelhos. Karl Adam, em seu livro Jesus Cristo, destaca que entre as principais características de Jesus, está a própria consciência da sua missão, a lucidez do seu pensamento e mensagem. O Jesus pasoliniano é o Jesus mais próximo possível do Jesus evangélico. O “sim” e o “não” tão presado por ele está em voga durante toda a obra, pois Jesus apresenta os ensinamentos de forma objetiva e suas palavras são acatadas ou não. No filme, Jesus diz “Pedro, André, vem comigo e os farei pescadores de homens”. Eles não respondem e vão. Nenhum discípulo responde oralmente, pois Pasolini atribui o máximo respeito às palavras de Jesus, diminuindo o máximo possível as palavras de outros personagens. Apenas ocorrem outras falas ao longo do filme para tornar possível algum discurso de Jesus. Tal elemento é evidente quando os fariseus são intercalados questionando Jesus. Durante todo o filme, há apenas uma cena posterior ao nascimento de Jesus e anterior a sua morte em que Jesus não está presente e há diálogo. Essa é a passagem em que é pedida a cabeça de João Batista, necessária para o desenvolvimento da narrativa.

Pasolini utiliza uma montagem que intercala diversas pregações em cortes rápidos, alternando ângulos e enquadramentos, pois não importa a narrativa e nem situar o espectador. Os enquadramentos eram fechados nos rosto de Jesus, sendo a maioria em close, sem a preocupação de inserir os planos em contextos e nem situar o espectador em um espaço geográfico.

O Jesus de Pasolini não é apresentado como o fundador de uma religião, mas como um líder que valoriza o povo e os pobres. Essa visão vai de encontro com os ideais sociais do cineasta. Jesus, em diversos momentos, renuncia à riqueza e deixa claro que o materialismo afasta o homem do divino. Pasolini percebeu que a sociedade se encontrava há quase dois mil anos separada dos textos originais, tendo sido eles interpretados sucessivamente ao longo desse tempo. Sua mensagem original teria se perdido entre tantas interpretações. Nisso consiste o minimalismo estilístico da obra, que tentou se distanciar de qualquer possível interpretações ou racionalização do texto bíblico.

O silêncio das pessoas comuns dos filmes (que propositalmente também não eram atores profissionais) dava lugar a suas expressões captadas em closes, que transmitem perfeitamente as sensações do povo perante a história que se desenrola. Os rostos dessas expressões eram "os mesmos" para os quais Jesus falava: eram rostos de moradores de bairros pobres, rurais e pessoas de baixa posição social. Essa escolha do elenco corrobora com a mensagem de João de que Jesus veio para todos e isso foi ressaltado pela minuciosa escolha da trilha musical, que unia Bach, Mozart, Prokofiev e Anton Werb, bem como músicas originais de Luis Bacalov, spirituals negros, canções revolucionárias e hinos hebraicos.

A fotografia em preto e branco possibilita que a alternância entre claro e escuro fosse evidenciada, como no trecho do sermão da montanha, onde Jesus discursa sobre a noite e o dia. A utilização do contra-plongèe permite que Jesus surja em cena tendo o sol por trás de si, resplandecendo sobre ele. A fotografia que Pasolini utiliza também se destaca durante toda a Paixão, pois o espectador acompanha todo o processo de longe, através do ponto de vista do povo, tentando enxergar através das cabeças que se encontram na frente da câmera, não conseguindo ver claramente o que acontece à distância.

Pasolini se apropria do personagem de Cristo e eleva sua mensagem, respeitando aquela que para ele seria a forma mais adequada de se contar aquela história. O filme renuncia à violência, às interpretações exageradas ou eloquentes e até mesmo aos milagres, para manter o foco na mensagem de Jesus. Pasolini eleva Cristo a um modelo exemplar de conduta humana, que renuncia ao dinheiro e valoriza os pobres. Seu Jesus, ao mesmo tempo que se aproxima do Jesus bíblico, se apresenta como um líder do povo, flertando com as crenças políticas do autor. Ao mesmo tempo que Jesus é elevado a um porta-voz do humano ideal, ele não se vê conectado à instituição Igreja. Tal proposta condiz com um tempo em que a fé e a Igreja não estavam mais tão conectadas como em décadas anteriores. No entanto, vale ressaltar que, embora Pasolini tenha tido como premissa evitar uma possível interpretação da obra, é importante ter em mente que tal abordagem é impossível, pois não existe olhar neutro, mas Pasolini conseguiu certa aproximação desse objetivo.