Titanic (1997): entre o real e o onírico

A unidade estilística do filme se dá através de diversas escolhas que estabelecem o navio como um elemento onírico além de um elemento histórico, pois vários elementos do filme podem corroborar com a premissa de uma fusão do real com o irreal, que aqui pode ser entendido como sonho.


Titanic é um filme de romance épico de 1997, dirigido e roteirizado por James Cameron. O filme conta no elenco com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Bernard Hill, Billy Zane, Kathy Bates, Francis Fisher e Gloria Stuart. O filme é ambientado no emblemático navio homônimo, vítima de um naufrágio em sua viagem inaugural em 1912.

James Cameron possui inúmeros créditos em relação à realização do longa. Poderia falar de seus estudos sobre o navio, sua utilização de material genuíno para dar credibilidade à história, a persistência para a realização do filme ou sobre o sucesso de bilheteria e crítica do longa. Mas destaco sua unidade estilística incrivelmente bem estabelecida. E essa unidade estilística se dá através de diversas escolhas que estabelecem o navio como um elemento onírico além de um elemento histórico, pois vários elementos do filme podem corroborar com a premissa de uma fusão do real com o irreal, que aqui pode ser entendido como sonho. Para facilitar o entendimento da presente crítica, optei por narrar preferencialmente os elementos que corroboram com a premissa definida em ordem cronológica.

Cameron poderia ter utilizado qualquer passageiro ou membro da tripulação do navio para gravar um filme épico e biográfico. Todavia, essa escolha não corroboraria com a mise-en-scène proposta, que evidencia uma fusão entre o real e o onírico. A escolha então recaiu na inserção de um romance fictício digno de contos de fada em um evento histórico rigorosamente posto em tela. Jack e Rose já seriam então uma primeira escolha de irrealidade dentro do universo do filme.

Logo na primeira cena do filme, são apresentadas ao espectador imagens em sépia do momento da partida do navio. Tais imagens, que não são originais, remetem, graças ao tratamento da cor, à época em questão. Essas filmagens passam em fusão, e ainda em fusão a câmera registra a superfície do oceano, e novamente em fusão ela passa ao equipamento submarino que, na atualidade, está “desbravando” as ruínas do navio. Esse elemento, a fusão, é um elemento essencial para se compreender como o filme relaciona o passado com o presente. Outro elemento que funde o real com o irreal foi a escolha de Cameron de utilizar imagens reais como pretextos narrativos para a drama. Por exemplo, a cena em que Jack escala até a primeira classe e rouba um sobretudo de uma pai (aparentemente) que está jogando com seu filho foi tirada de uma foto real, onde se encontrava o pai jogando com o filho em primeiro plano e o sobretudo sobre uma cadeira em segundo plano. O enquadramento que Cameron utiliza é o mesmo da fotografia, mas no filme, Jack surge no plano e rouba a roupa.

Na cena em que Rose começa a narrar para a tripulação sobre os acontecimentos relacionados ao navio, a câmera enquadra Rose, a trilha musical sustenta essa ideia do sonho, a câmera se aproxima de Rosa até dar um close em seu rosto, passando a um plano detalhe de seus olhos. A câmera segue e se move horizontalmente até enquadrar o navio junto à Rose, passa às ruínas do Titanic e em fusão, as ruínas do navio se tornam o navio a momentos antes de sua primeira viagem. Enquanto essa cena se desenrola, Rose diz que "ele era conhecido como o navio dos sonhos, e que de fato era".

Agora, com o espectador transportado para 1912, a jovem Rose chega ao navio. É necessário destacar a cena em que ela entra no navio: a câmera enquadra Rose de frente, na perspectiva do navio, aguardando sua entrada. A Rose idosa fala em off que as pessoas dali iriam buscar seus sonhos enquanto ela estava entrando em um navio de escravos. Nesse momento, o tempo é dilatado através da câmera lenta, e o seu rosto, que estava iluminado com a luz do sol enquanto ela falava do sonho, é encoberto por sombras quando fala sobre o navio de escravos.

Rose é apresentada como uma boneca, alguém que está a deriva. Seu primeiro enquadramento dentro do navio é através de um espelho, dessituando-a, no almoço é a única que utiliza vestimenta clara, Carl (seu noivo) pede o prato ao garçom ao invés dela pedir, quando Carl a presenteia com a joia, ela está enquadrada em um espelho ao som de uma caixinha de música. Quando ela veste a joia, inicialmente maravilhada pela sua beleza, passa a mão em torno do colar em seu pescoço como se o mesmo fosse uma corrente que a aprisionava àquela vida de luxo sufocante. No jantar, a câmera, perdida, flui pelo salão acompanhando a narração em off da Rose idosa, e encontra o rosto de Rose em desarmonia com o ambiente, com o olhar distante. Em um corte seco, Rose surge descabelada correndo para a popa do navio para se lançar ao mar. A cena em questão é a cena em que Jack encontra Rose prestes a se matar e a salva. No fim do filme Rose diz que Jack a salvou. Cameron usa elementos bem específicos para ilustrar a aproximação dos personagens e o salvamento da Rose. No primeiro enquadramento dos dois personagens juntos, o foco está no rosto da Rose em primeiro plano e então foca Jack ao fundo. Quando ele se próxima da borda do navio e ambos são enquadrados em um plano mais aberto, Jack está ao lado de uma âncora, que é uma metáfora para segurança. A medida que os cortes são feitos, Jack é mostrado cada vez mais próximo de Rose, até que por fim, a segura.

Rose e Jack pertencem a mundos distintos, e Cameron põe isso em imagem de forma espetacular. Quando Jack vai até o salão da primeira classe, ele e Rose se encontram na escadaria do relógio, que é como o coração do navio. Quando Rose vê Jack, ele é enquadrado em plongée em plano geral, pequeno no cenário, enquanto Rose é enquadrada em contraplongée em plano médio. Naquele momento, Jack estava fora do seu mundo. Rose era a responsável por o guiar. Logo depois, quando eles se encontram para ir até a a festa da terceira classe, Jack está no topo da escada e ela abaixo. Ele é enquadrado em contraplongée em plano fechado e ela em plongée, diminuída no cenário. Os papeis se invertem. A câmera dá um close no rosto de Jack estando sob ponto de vista da Rose. Jack olha para Rose (e graças à câmera subjetiva também para o público) e diz: agora te mostrarei uma festa de verdade. A posição de Cameron em expor para o espectador o valor por ele atribuído aos mais pobres no filme é evidente também pela forma como ele filma a música e a dança tradicionais na terceira classe. Em certo momento, há um corte seco na imagem e no som para dois segundos da primeira classe com sua frieza e monotonia, onde nem música há. A montagem ideológica foi muito bem utilizada aqui.

Outro elemento dramático utilizado por Cameron para destacar universo onírico do filme diz respeito à arte. A relação de Rose com os quadros, a música diegética da terceira e da primeira classe, os desenhos de Jack, a porcelana, a arquitetura do navio, os lustres, as músicas folclóricas etc. Enquanto Rose está deitada sendo pintada por Jack, ocorre uma poderosa junção de elementos que conectam a arte, a história e o próprio filme. A música lenta e a montagem lenta dominam o inicio da cena, que vai ganhando força e intensidade. A música fica mais alta, a montagem mais rápida, intercalando as mão no desenho sendo feito, o desenho em si, os olhos de Jack e os olhos de Rose, sempre em fusão, como se tudo ali estivesse conectado. As mão não são, na verdade, do Leonardo DiCaprio, mas do James Cameron e ao fim há uma fusão dupla, passando dos olhos do desenho, para os olhos da Rose jovem, até chegar aos olhos da Rose idosa. Cameron funde o universo narrado ao universo real e à narrativa fílmica.

Outro momento em que a arte, nesse caso a música, conecta todo o universo do filme é quando os músicos do Titanic tocam pela última vez. Já com o navio naufragando, os quatro músicos tocam músicas alegres para amenizar a tragédia. Ao terminarem a canção, três se despedem e o violinista, sozinho começa a tocar uma última música, bastante melancólica. Os outros voltam e se juntam a ele. Todo o som deixa entra em elipse e o espectador apenas escuta a belíssima e triste canção. Enquanto a música que, inicialmente é diegética, toca, cinco cenas são intercaladas: o capitão do navio que se despede do navio ao leme enquanto o entorno da cabine é tomado pela água do oceano; o engenheiro e criador do navio que arruma as horas pela última vez de um relógio do navio em tom de despedida; um casal de idosos que se abraçam em uma cama em um quarto que está começando a ser inundado; uma mãe pobre que conta pela última vez uma história infantil para seus filhos dormirem; os quadros de Rose boiando e afundando. Quando essas cenas se encerram e a câmera se volta aos músicos, o som da música começa a diminuir e sons de gritos e de água começam a ser ouvidos, gradativamente mais altos, tomando o espaço auditivo da música e o espectador contempla imagens da destruição do navio. A música finalmente para e o capitão do navio é dragado pela água. Nesse momento o filme passa por uma virada, se tornando mais trágico. A arte está morta, e quem está ali no navio agora também morrerá. Essa cena possui uma forte carga simbólica. A música final conecta as vidas do navio, mas também anuncia a morte dos que ali ainda estão.

Ao longo do texto, foi possível evidenciar a forma com a qual o filme possui uma unidade estilística que funde o real ao irreal e onírico. Outrossim, todo o filme pode ser encenado na fantástica sequência final: quando a Rose idosa atira o coração do oceano no mar, ocorre uma fusão para a personagem em sua cama, onde ela dorme ao lado de diversos retratos que são mostrados através de fusões. A câmera então desliza verticalmente novamente até ela e dá um travelling para a escuridão do quarto, emendando com as profundezas do oceano. É então possível ver as ruínas do navio. A câmera está em um plano sequência que, enquanto ela adentra o navio, o espectador percebe o navio se tornando novamente novo. Em um ponto imperceptível, a câmera passa ao ponto de vista de um personagem que entra pela porta do salão. Na escada, a câmera deixa de ser subjetiva dos olhos da Rose e enquadra ela e Jack no relógio do navio, onde são parabenizados por toda a tripulação e passageiros do Titanic, terminando em branco total. A música que toca em seguida é a música tema do filme, da Celine Dion, My Heart Will Go On, tendo como primeira frase "toda noite nos meus sonhos".